sábado, 9 de agosto de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas


Provavelmente só irei postar alguma coisa sobre esse filme novamente se for alguma sátira, como dois ou três posts abaixo, ou algum outro comentário. Mas esse é um filme que merece.
Os quadrinhos são a mitologia para os dias de hoje, com deuses e heróis que fazem o impossível, e que ocupam um grande espaço no nosso imaginário. Mas faz pouco tempo que começaram a tratar os quadrinhos e suas histórias como forma de arte, ou seja, levá-los realmente a sério. Posso dizer que um dos ápices dessa renovação é Batman - O Cavaleiro das Trevas, filme que estreou há três semanas e já está quase alcançando a segunda maior bilheteria da história.
Grande parte dessa bilheteria se deve, em primeiro lugar, ao bafafá que se fez em volta da "última atuação de Heath Ledger", que morreu em janeiro por causa de uma overdose acidental de remédios. Além disso, uma campanha massiva, enlouquecedora e muito criativa pegou os fãs pela boca, e os aprisionou no frissom do filme meses antes da estréia.
Mas o filme não baseia sua força como filme propriamente dito em nenhum desses fatores. É, simplesmente, tudo o que sempre queriamos ver num filme de herói. Mas nunca tinhamos pensado nisso. Para começar, não é um filme de "super-herói". É muito mais um filme de máfia, um filme de crime, dramático e pesado. É incrivelmente denso para um filme com essa censura (além de violento também), com certeza o "filme de super-herói" mais denso e violento que há.
Muitos dizem que esse é um filme do Coringa muito mais do que é do Batman, mas isso é coisa de criticozinho sensacionalista. É um filme de Gotham City. Todos tem importância, todos influenciam no andar da história. Nenhuma direção do roteiro é gratuita, assim como nenhum dos personagens.
Eu disse que é um filme que nunca ninguém tinha pensado antes porque de fato, nada nesse filme é previsível. Os personagens não são tanto adaptações, mas sim criações novas. O Coringa desse filme não é o Coringa dos quadrinhos, ou o Coringa da Feira da Fruta. É uma nova idéia do que o Coringa poderia ser, um gênio do crime com uma ideologia, sem passado, sem vontade de ter um futuro. Ele tem um plano por trás, mas suas motivações não são ocultas, são simplesmente inexistentes. Ele é, de fato, um agente do caos.
Harvey Dent, promotor público que luta como pode contra a corrupção, com jogadas jurídicas geniais e integridade impecável, também não é o mesmo Harvey Duas-Caras dos quadrinhos. Conseguiram criar um Harvey que não tem um distúrbio de dupla personalidade, mas que de fato passa por uma transformação, o que o desfigura completamente por dentro, algo muito pior do que o que acontece com seu rosto.
Batman é praticamente um Jack Bauer. Não há limites para seu dinheiro, seu fanatismo ou seu alcance. Ninguém fica entre ele e seu objetivo, e ele distorcerá o que for para impedir o crime em Gotham, inclusive qualquer valor moral. Lembra bastante os melhores Batmans dos quadrinhos, mas ainda assim é levado a um estágio à frente.
O roteiro do filme é o melhor ponto dele. As reviravoltas podem parecer um pouco muito numerosas, mas não ficam forçadas. Não são gratuitas, simplesmente que você diz "Oh... Esse é o assassino... Pff...". A direção extremamente competente de Christopher Nolan, assim como a fotografia e direção de arte, deixam o filme com um tom de realismo muito bem vindo.
Mas o que mais chama a atenção são mesmo as atuações. É claro, a de Heath Ledger é e será a mais comentada de todas. Sua última criação é algo fenomenal, completamente bizarro, sem nenhuma noção de ordem ou de limites. Sua voz, trejeitos, ações, nada está forçado, exagerado. Esqueça o Coringa risonho e brincalhão de Jack Nicholson, que mais interpretou a si mesmo do que inventou alguma coisa no filme de 1989. O Coringa daqui suga toda atenção quando está em cena, e já é um personagem clássico.
Aaron Eckhart cria um Harvey Dent com uma eficácia incrível. Ele é um herói de verdade, que melhor representa o "bem", até que algo lhe destrói completamente, deixando seu senso de justiça completamente desregulado. De longe, o ponto alto de sua carreira.
O ator que pelo menos eu mais comemorei quando foi escolhido para o papel sem dúvida é Gary Oldman. Aqui, o tenente Gordon serve como os nossos olhos. Ele é o humano no meio dos deuses e demônios que brigam e desolam tudo, e faz o possível para proteger o seu lado. Uma atuação contida, mas estupidamente carismática, para mim a segunda melhor do filme.
Christian Bale continua fisica e mentalmente na medida para Batman/Bruce Wayne. Não posso dizer que é o elo fraco do elenco, mas é o que traz uma crítica pelo menos, que é a voz que faz quando está de uniforme de morcego. Apesar de funcionar as vezes, na maioria das cenas é digno de merecer o vídeo que postei essa semana. Destoa de um filme sério e adulto alguém tentando imitar o Darth Vader para ficar ameaçador.
O resto do elenco está lá para marcar presença, mas consegue trazer mais peso à história. Michael Caine, Morgan Freeman, Maggie Gyllenhal, e até mesmo o extremamente mixuruca Eric Roberts fazem um trabalho ótimo.
É o filme do ano. É o que será lembrado daqui a dez anos como um marco na história do cinema e da cultura pop. Não em termos de qualidade, mas em termos de importância, decisões e de clima. Agora não dá pra dizer que os filmes de héróis são coisa pra crianças.
- As referências a O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, A Piada Mortal de Alan Moore e O Longo Dia das Bruxas de Jeph Loeb são fantásticas.
- Eu fiquei eufórico no momento que aparece o Bat-Pod. Mas quando ele deu a pirueta na parede, broxou geral.
- O pior do filme é que ele te lembra que nunca mais veremos um Coringa assim.
- O diálogo do hospital entrou para minha lista de melhores diálogos da história do cinema.
- Já vi duas vezes, pretendo ver mais!

2 comentários:

Julian disse...

ótima análise...
eu me sinto extremamente culpado de não ter visto o filme, ainda... mas logo logo irei \o/
suas palavras soh me deixaram com mais vontade

goodbye my friend

Ana disse...

Silas!!!
vc escreve muitíssimo bem, melhor do que muitos críticos de cinema por ai.
saudade!

beijo