segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Divertida Mente e Turma da Mônica - Lições - Mágica

O uniforme amarelo da Mônica importa.
Antes: Já foi assistir Divertida Mente? Já leu Turma da Mônica - Lições? Então pode continuar.
* SPOILERS *
O funcionamento de um truque de mágica, em todo truque de mágica, se resume a chamar a atenção das pessoas para uma coisa, um lado do palco, e, enquanto a atenção está lá, o mágico tem a liberdade de usar todo o resto do mundo para fazer o truque que quiser. Normalmente é espaço o suficiente para fazer um prédio sumir ou uma moeda sair da sua orelha. Não é só uma questão de esconder o truque. É uma questão de mexer com a expectativa do público. É perverter a lógica interna de todos ali. Aquilo é uma cartola vazia, logo, nada pode sair dali.
De uma forma muito similar, as artes narrativas (literatura, cinema, quadrinhos, teatro), precisam fazer isso o tempo todo.  Não é só uma questão de ter um “final surpresa”, mas sim uma “experiência surpresa”. Uma história precisa usar o seu universo cultural contra você próprio, de maneira a subverter expectativas. Precisa atrair você, talvez com uma premissa identificável e elementos comuns, para de repente puxar o tapete e jogar um balde de água. Precisa esconder de você elementos da história, informações, até mesmo elementos temáticos, para obter revelações calculadas e extrair de você aquela emoção com a qual esses contadores de história se alimentam.
É curioso como subestimamos tanto aquilo que  vem do universo infantil. Como achamos que aquilo não tem tanto a ver com a gente, adultos tão crescidos. Como achamos que aquilo não tem como nos surpreender.
Mesmo depois de ter visto quase 10 clássicos imortais criados pela Pixar (mais uns 3 filmes BACANAS (e uns dois ruins)), eu não deveria ter ido assistir Divertida Mente ainda pensando que as coisas serão como “qualquer desenho animado”. Claro, já esperava uma viagem extremamente madura sobre qualquer que seja o assunto central, já que a Pixar (com poucas excessões) sempre entregou isso com louvor. Mas o que eu não esperava era ter um revertério na própria estrutura da história.
Quase toda história vai colocando seu protagonista em situações cada vez mais tenebrosas. Joga o “herói” contra obstáculos mais e mais complicados. Isso é o crescendo dramático. O caminho ao climax. A tensão precisa ir aumentando, de maneira a prender você cada vez mais à cadeira. Mesmo que isso funcione, nós nunca deixamos de esperar que a resolução venha. “Tudo vai voltar a ser como antes”. E na enorme maioria das vezes, tudo de fato volta ao normal. Acabada a missão, o herói volta pra casa, provavelmente tendo aprendido algo sobre trabalhar em grupo, respeitar os animais, ou não invocar demônios tentaculares de outra dimensão.
Em Divertida Mente, ainda no meio do segundo ato, você já tem total certeza: isso aqui não vai voltar ao normal. Nunca. Essa criança nunca mais vai ser a mesma. Os eventos desse filme vão deixar cicatrizes. Na protagonista e em mim, pobre expectador. É irônico, já que uma definição que eu uso em aulas de cinema para “divisão entre atos” é “um evento ocorre, e as coisas não podem mais voltar a ser o que eram”. Mesmo assim, é muito difícil encontramos, numa história, algo que realmente nos envie para esse calabouço de desespero, o bom e velho “Putz. E agora?”. Só mesmo quando morre um Stark. Boas histórias deveriam fazer isso o tempo todo. Porque boas histórias são extensões simbólicas da nossa própria história de vida. E na nossa vida esse tipo de evento acontece pouco, certo?
Ao ler o excelente Turma da Mônica - Lições, dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi, me deparei também com esse fenômeno. O quarteto eterno está lá, Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, vivendo estripulias, causando desordem, quando eles tomam uma decisão. E essa decisão tem consequências. E todos sofrem com isso.
E naturalmente, tudo ia voltar ao normal. Tudo ia ficar bem. Eles iam acabar bem, como sempre acabam. A Mônica ia voltar a colocar o vestido vermelho clássico, ia deixar de usar esse uniforme amarelo, estranho, que usa durante quase a revista inteira. Acontece que os eventos se desenrolam, a história progride, e a revista vai acabando. E nada daquele confortável status quo voltar do limbo. Não só iludido pelas clássicas histórias da Turma da Mônica, que nunca tinham o objetivo de serem os estudos de personagem que essa série MSP 50 é, mas sim anedotas, piadas, aventuras fechadas. Mas também pelo que eu sempre espero de histórias envolvendo a infância. De que tudo vai acabar “bem”.
Mas o peso das aspas em “bem” é muito grande. Porque “bem” não é o status quo. Especialmente quando falamos da temática que está fluindo de Divertida Mente e de Turma da Mônica - Lições. “Crescer dói”, ouvi uma vez falarem. Um pastor tinha levado seu filho ao médico, por causa de dores leves no corpo. O diagnóstico foi simples e suscinto: crescer dói.
Crescer é difícil, uma afronta aos costumes e aos paradigmas que você acredita serem os pilares da Terra. Crescer é você entender que o ontem morreu. O ontem nunca mais vai voltar. Ao chegar num sábado, a sexta-feira evapora-se num oceano de memória, virando espuma. E como aprendemos com a Mônica, no final da revista, glória a Deus pelo sábado muito esperado. “Bem” é a sexta-feira não retornar. É termos as ilhas dos paradigmas internos serem esmigalhadas pela dor da realidade, e nos recuperarmos com um abraço. Não é deixarmos para trás aquilo que nos faz criança, mas entendermos que não é daquilo que viveremos dali para frente.
É um truque muito bonito. Fazer você pensar que aquela última ilha vai sobreviver. Fazer você pensar que o quarteto vai continuar junto para sempre. E aí uma palavra mágica. Um sutil movimento da mão. Lágrimas correm. O choque atinge. A catarse se completa. Você olha para trás, uma última vez, e vê de longe a memória sumindo, saudoso, e então vira sua cabeça para a única direção que realmente importa. Para frente.
E o coelho está fora da cartola.
Aplausos, Pixar. Aplausos, Irmãos Cafaggi.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Outra Tartaruga

Eu acordei num mundo sem Terry Pratchett.


Há muito tempo, um matemático muito louco, com uma atração muito questionavel pela sobrinha, fez um poema chamado Jaguadarte e o inseriu em seu livro Alice Através do Espelho. É um poema que descreve… Algo. Algo mágico. Disforme. Torto e misterioso. Não faz o menor sentido. Era um dos primeiros e mais expressivos expoentes do Nonsense, esta forma de arte que muitas vezes consiste em bater cocos e fingir estar cavalgando através de campos ingleses atrás de cálices sagrados, e que influencia o girar do mundo desde que alguém percebeu que “humor” e “sentido” são conceitos que podem, sim, passar por um difícil período de divórcio. Estava ali expresso em outra forma de arte, uma muito mais difundida e muito menos interessante. A literatura, no seu sentido mais originário e profundo, é o trabalho de juntar letras numa forma coerente e fazer alguma coisa a partir disso. Literatura, em seu sentido mais prático, é a construção de livros, de histórias narradas através de palavras. Literatura, em seu sentido mais metrossexual, é como as pessoas chamam “livros de verdade”, como se houvesse alguma coisa no mundo como “arte falsa”.
Terry Pratchett disse uma vez que as pessoas acusavam ele de fazer literatura.
Enquanto escrevo estas palavras, faz trinta e quatro dias que acordo num mundo sem Sir Terry Pratchett. Ele foi um autor britânico de fantasia que escreveu mais de quarenta livros, chegando a bater J.K. Rowling como o autor mais lido no Reino Unido, e isso bem no meio do frisson Potteriano.
São trinta e quatro dias em que o mundo é mais redondo, no mau sentido. Sem aquele planeta em forma de disco que Pratchett criou, equilibrado no lombo de quatro elefantes, dispostos no casco de uma tartaruga galática. Trinta e quatro dias sem aquela forma fantástica de escrever, que fazia dele réu de todas as acusações literárias.
A escrita de Pratchett era, de fato, bem elaborada. Poucas vezes o mundo viu alguém que tivesse tanta facilidade para fazer as palavras, seus sentidos, seu lirismo e sua transcendência dançarem a favor da história que está contando. E ele fazia isso com graça, com dureza, com ritmo e com fervor. Mesmo assim, muita gente preferiu ignorar Pratchett, só porque o grosso de seu trabalho pertencia a “gêneros” “menores”: a comédia e a fantasia.
Pratchett usava a fantasia e a comédia como um pintor usa o azul. Às vezes é um céu, de fundo. Às vezes é um pássaro, o assunto da pintura. Às vezes o pintor é um desses moderninhos cujas telas são inteiramente azuis e você não entende muito bem o que ele está fazendo, mas o pintor nunca quis que você o “entendesse”. A comédia e a fantasia de Pratchett não eram o “pano de fundo” somente, como em diversas outras obras. Tomavam o palco central para servirem de tema, de transporte, de modelo, de explosão. Pratchett conseguia misturar sátira e conceitos elaborados de “high fantasy” com o mais puro nonsense de maneira fenomenal. Sua atenção a detalhes era invejável. Por exemplo, num mundo em forma de disco, ninguém seguia direções como “norte, sul, leste e oeste”, e sim “centro, borda, anti-horário e horário”.
A comédia é, para todos nós, tanto um alívio quanto uma arma. E Pratchett apontava ela para tudo e para todos. Arquétipos literários clássicos, a insanidade das religiões extremas, os sistemas de poder que regem o mundo. E o britânico safado ainda tinha a pachorra de fazer tudo com um nível de humanidade surpreendente. Seus personagens são sim, bruxas, bárbaros, turistas, vendedores de seguro e magos fajutos, mas todos são humanos (menos o Bibliotecário, ele é um orangotango). As fraquezas e os sonhos nas histórias de Pratchett são tão épicas quando as que existem em cada um de nós. Seu personagem mais querido, Morte, é o anjo da morte do Discworld (seu trabalho, não sua personalidade), e muitas vezes tudo o que ele queria era uma fazenda e uma família, e não esse vai e vem de almas, acidentes de trabalho e assassinatos. Falava tudo em letras maiúsculas, e era quem mais mostrava entender sobre as peripécias do ser humano. Outra coisa que estava sempre em seu trabalho era a cultura popular. Mitologia, cinema, música, política, tudo era transportado para o Discworld e para suas outras obras como piadas, mas piadas tão certeiras que, depois de passada a hemorragia, você de fato chegava num novo nível de entendimento.

Sua principal força era a magia que fazia com as palavras, subvertendo expectativas e significados a cada parágrafo, desconstruindo preconceitos e criando vida. As ações e situações em seu mundo-disco quase nunca seguiam o senso comum de nosso mundo-globo, mas diferente do Jaguadarte, eles chegavam em algum lugar. Não era exatamente uma lição de moral clássica, mas sim um desdobramento daquilo que você achava conhecer bastante.
Houve outro autor, também falecido muito antes de seu tempo, que tinha muitas semelhanças com Pratchett, mas sua obra gozou de muito mais prestígio fora das terras britânicas. Douglas Adams teve ainda um filme de alto orçamento baseado em seu Guia do Mochileiro das Galáxias, e é referência em 11 entre 10 conversas desses nerds de hoje, que esqueceram completamente da época em que ser nerd era um crime . Adams realmente era muito engraçado e muito bom. Pratchett fazia com a fantasia o que Adams fazia com a ficção-científica. Mas Pratchett, por conseguir inserir coração e filosofia de verdade, ao invés de sarcasmo desocupado e “one-liners” capciosas, era um escritor superior. (É amiguinhos. Toquei num bastião do paradigma literário. No próximo texto vou falar mal do Tolkien).
O mais famoso amigo de Pratchett, Neil Gaiman, (que com ele escreveu o livro Belas Maldições) dizia que as pessoas não deveriam confundir: Pratchett podia parecer um senhor bonachão e brincalhão, com seus jogos de palavras, seu chapéu fedora preto e sua aparência de “Freud com drogas mais recreativas e menos pesadas”; mas na verdade ele estava furioso. Furioso com o mundo, com as instituições. Furioso com sua própria mente, que deteriorava rapidamente em razão ao seu estágio avançado da doença de Alzheimer. Furioso com o governo, que não lhe permitia executar uma eutanásia que tanto queria.
A fúria de Pratchett tinha uma razão de ser, mas discordo sobre ser seu mote. Pratchett criava admiração, amor, heroísmo e nobreza a partir de párias e de espíritos malignos. Seus finais não eram só “felizes”, eles eram o repouso após uma aventura louca (e nunca acabavam como você imaginava). Pratchett podia usar sua fúria como locomotiva, mas a usava para chegar num lugar cheio de beleza.
Esse era Terry Pratchett para mim. O homem que era, na minha opinião cheia de humildade e 45% confiável, o melhor escritor vivo no mundo.
Até o dia 12 de março, quando  sua doença, definida por ele mesmo como “um aborrecimento”, o levou a encontrar seu maior personagem, alto, ossudo, sempre sorrindo e sempre falando em CAPS LOCK. E juntos foram procurar outra tartaruga, em outro lugar, longe daqui.
O mago Rincewind. A vovó Cera do Tempo. O Capitão Samuel Vimes. O Bibliotecário. O inútil Mort. O Morte. Cohen, o bárbaro. Lord Vetinari. Moist Von Lipwig. A Bagagem. Duas-Flor, o turista. Os Pequenos Homens-Livres. Vampiros. Deuses pequenos. Guardas. Dragões. A grande tartaruga 
A’Tuin.
Todos ficamos órfãos agora.
Vá em paz, Sir Terry.

sábado, 14 de março de 2015

THE WALL



Existem duas pessoas na minha frente. Elas conversam sem parar. Exaltam-se sem parar. Sem motivo algum também. Uma fala em vermelho. A outra fala em azul.

Eu moro num país que está dividido. Você deve conhecer esse país porque ele é mundialmente lembrado por futebol, corrupção e a exploração da mulher. Brasil, onde a desigualdade só se iguala ao quanto as pessoas curtem não resolver a vida.

Esse país tem uma presidente. Dilma. Que é apoiada por uma faixa da sociedade que acha que ela é de esquerda. Ela sofre oposição de uma faixa da sociedade que acha que ela é o demônio. E ela não é o demônio. Nem é de esquerda. Ela só...

Ah mas ela é o demônio sim. É uma pata fendida de bode que só. Uma canela de tabóca, o capa verde em pessoa.

Não é um pouco extremo comparar um ser humano ao príncipe das trevas?

Mas ela não é um ser humano. Ela é um monstro. Ela enterrou o país em corrupção e é responsável por tudo o que há de errado nele.

Ela sozinha?

Não, ela e o partido/quadrilha dela.

Ih ó, olha o coxinha falando. Leu aonde isso tudo, na Veja?

Li no dia a dia do meu país. Eu que sou cidadão de bem trabalhador. Diferente de você que vive de bolsa-alguma coisa.


Calma aí. O cara não é porque discorda de você que automaticamente vive de bolsa-alguma coisa. Viver de bolsa-alguma coisa nem sempre é algo ruim. Se é o que impede ele de...

Eu vivo como eu quero. Com bolsa ou sem bolsa. Sou livre da mídia golpista, seu elitista reacionário nojento.

Peraí, o cara agora é elitista porque ele discorda de você? Ou porque achou que você vive de bolsa-alguma coisa?

Eu não sou elitista. Eu vivo com o pouco que o meu trabalho me provê. E não sou alienado de acreditar nas lorotas da presidente.

A Presidenta não conta lorota. Tudo o que ela fala é verdade. E ela é linda. Ela é um símbolo de liberdade.

Wow calma aí. A Dilma agora é isenta de corrupção? E ela é linda?!?

É, ela é linda. E ela deu o sangue pelo Brasil. Pode-se ver nos olhos dela a nobreza dela.

Hã?

Você se orgulha de uma terrorista.

E você, que votou num viciado que bate em mulher.

Peraí gente...

Esse viciado, se é que é viciado, governaria muito melhor que essa anta. Dia 15 vamos lá tirar ela do poder.

Peraí, para tudo. Ninguém vai tirar ninguém de nenhum lugar.

Exatamente. Ela foi eleita legitimamente.

É, foi mesmo.

Foi eleita pela maioria do Brasil.

É. É... Não... A maioria do Brasil ou votou no... Uh... Viciado... Ou não foi às urnas.

Azar deles. E desse reacionário aí. Deve ser racista também.

Calma aí, como é que o cara é racista? Só porque votou diferente de você?

Elitista é tudo racista, companheiro. Odeiam os pobres e os negros e os gays e os...

Companheiro é a senhora sua avó, Deus a tenha.

Ela foi eleita numa eleição manipulada.

Manipulada pela... Propaganda, que é legalizada?

Legalizada, mas anti-ética. O ladrão-mor deles comparava os adversários aos nazistas. E todo mundo aplaudia.

É. Comparar ao nazismo é um pouco de ignorância mesmo. Mas... Eleição é eleição. Chama-se democracia.

DEMO – cracia, só se for. Ainda mais com as urnas hackeadas.

Calma aí. É fraude ou é propaganda? Vocês não podem mudar de argumento a cada 3 segundos.

Vê a fraqueza? Não tem argumento, só tem artimanha.

Artimanhas como mudar leis para não ser pega em crime de responsabilidade, ou nomear amiguinhos para julgar os próprios crimes?

Ninguém provou nada contra a presidenta.

Presidente. Se ela governa o Brasil, ela não é Governanta. Ou é?

Não provaram nada contra ela.

Claro que provaram. Você leu que ela é inocente aonde, na Carta Capital?

Eu não vejo lógica em ler nenhuma das revistas mencionadas, pelo menos para usar argumentos. Vocês não acham nenhuma delas meio... Tendenciosa?

Como, tendenciosa? A Veja sim, ela é...

Todo mundo sempre vai passar fatos por um filtro grosseiramente específico antes de imprimir qualquer coisa. Eu sou publicitário. E cineasta. Confie em mim.

O fato é que dia 15 vamos tirar ela do poder.

Não provaram nada contra ela. Nem acusaram ela ainda de nada.

Ora, não podemos ser crianças e ignorar...

E ignorar que tem que ter um processo legítimo, e que presidência não é o Campeonato Carioca?

Mas é óbvio que ela...

Olha, me parece óbvio que ela reticências. Só que parecer reticências é diferente de ter cada um dos três malditos pontos analisados. Você tem noção de quem vai entrar no lugar dela se isso for pra frente?

É, não vai ser o Aécio não, seu mentecapto.

Não, vai ser um cara cuja melhor coisa que se fala dele é que até os parceiros políticos tem medo dele.

Mas é melhor do que ter essa corja. Esse partido maldito.

Você pode achar que o partido é maldito. Ele deve ser mesmo. Mas ele foi eleito. E tem que cumprir mandato.

Não adianta vir com pedido de Impeachment só porque perdeu.

... Como vocês fizeram também lá atrás...?

Aquela era uma outra época.

Ah claro.

Você tem que vir pra rua no dia 13. 13. Número lindo. Número da verdade.

Pra quê? Os seus políticos defendendo a Petrobrás tem o mesmo impacto moral do Conde Drácula defendendo um banco de sangue. Eu vou ficar em casa.

Você deve ser um reaça também. Reaças não passarão.

Nem passarinhos. Só por que eu não concordo com você?

... É. Nem com o meu time.

E como é que você não concorda com o meu time também?

Ei, diz o seguinte. Porque vocês não defendem planos e idéias ao invés de se ofenderem por causa de times? Nenhum dos dois lados é perfeito. Nenhum dos dois lados tem a ficha irrepreensível.

O FHC é um anjo.

E eu sou o Artista Anteriormente Conhecido como Prince. E vocês continuam defendendo suas posições bem mais do que suas idéias. Não vou nem falar sobre como todo mundo votou para deputados. Vocês tem noção do que um deputado faz? Tem gente lá defendendo um dia do Orgulho Hétero. E eu sinto vontade de desistir da vida. Um bando de gente sem solução nenhuma para o que foram contratados para fazer.  Vocês tem alguma solução?

A Dilma Linda tem soluções que estão funcionando.

As soluções da Dilma se resumiram a roubar o plano econômico do adversário e aplaudir a si mesma. Ela propôs um diálogo com o ISIS.

Ela fez isso porque os EUA ignoraram a ONU.

Ignorar a ONU é errado, mas propor um diálogo com uma galera que está fatiando crianças por diversão é desconcertante. A Dilma fez um monte de burrada. Não acho ela minimamente competente. Mas ela foi eleita. E deve sair só se cometeu um crime. Tem que se cumprir a lei. E o povo tem que votar melhor. Isso é democracia. Diferente da ditadura.

Na ditadura tudo era melhor.

Na ditadura o governo mandava matar gente inocente.

E se não fossem pelos nossos heróis, nós não estaríamos aqui. E essa ditadura continuaria.

A ditadura não terminou por causa disso. E vá procurar quem eram todos esses “heróis”. Sabia que tem alguns deles presos hoje por corrupção política e...

Mas estão sendo libertos em nome da justiça.

Em nome da camaradagem entre ladrões. Dia 15 temos que estar todos lá. Você vai?

Se fosse um protesto contra a corrupção, até pensaria em ir. Mas agora, parece muito que vai ser um protesto a favor de um Impeachment, cujas evidências nem saíram do forno ainda. Não. Eu não vou.

Você não vai nem no dia 13, nem no dia 15? Você não pode ficar em cima do muro.

Exatamente. Você tem que tomar uma posição. Você não pode ficar em cima do muro.

Não posso?

Como assim eu não posso?

Um lado mistura o discurso político com ódio enraizado na boa e velha discordância política, aumentada pela grande mídia seletiva. O outro mistura o discurso político com uma alienação zumbizóide idólatra, aumentada pela pequena mídia seletiva. Não me vejo como totalmente imparcial. Mas, nestes dias de passeatas em defesa ou de corrupção inocentada ou de tapetão antidemocrático, eu sinto falta é das pessoas, de ambos os lados, que sabem conversar.

As pessoas humildes e que realmente se interessam mais em mudança e menos em poder precisam acordar e falar contra essa polarização inútil ao invés de a favor de si mesmos. Parem de adorar o próprio umbigo. Ambos os lados se masturbam com a percepção de que são supremamente inteligentes. Do que adianta inteligência quando só sobrarem cinzas?

Ficar em cima deste muro?  E como não? Há idiotas dos dois lados. O muro é o que me sobra. O muro é o meu reino. Planto aqui minha bandeira e garanto um camarote para assistir o apocalipse. Espero que não seja tarde demais quando acabar.

“Não importa droga nenhuma, porque daqui a trinta anos as bombas nucleares vão voar que nem besouros... E aí o Ozzy aqui será o homem mais inteligente das cinzas”.

Comediante – Watchmen, Alan Moore e Dave Gibbons. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Tout cela fait partie du plan

A maioria dos dias são dias perfeitamente normais para a maioria das pessoas. São dias em que nada sai do comum. São dias que nem lembrados são. Como comentado no recente sucesso dos podcasts, Serial, a investigação de um caso de assassinato se dificulda especialmente porque os envolvidos não lembram-se de detalhes de um dia comum.
O que faz do que aconteceu em Paris segunda semana de janeiro de 2015, um dia não só memorável, mas que dificilmente será esquecido. A coisa mais incomum imaginável para qualquer cidadão do mundo civilizado é estar no meio de uma zona de guerra. Dois terroristas invadiram a redação de um folhetim, fuzilaram vários de seus funcionários, entre redatores e cartunistas, e fugiram. No dia seguinte, no meio da perseguição policial, em outra parte da cidade, um terceiro terrorista armou uma situação com reféns, em auxílio aos outros dois. No total, 17 pessoas morreram, sem contar os três terroristas.
A comoção foi imediata e mundial. Milhares de pessoas prontamente se manifestaram a favor das vítimas. Ou, quando discutiam sobre a falta de respeito religioso e possível discurso de ódio perpetrado pelo folhetim, que não era exatamente “bem intencionado” na opinião de muitos, pelo menos eram ligeiros em condenar a resposta com balas. Afinal, motivos políticos à parte, todos sentiram que a liberdade de expressão em si é que foi atacada. Cinco dias depois, 4 milhões de pessoas fizeram uma passeata nas ruas de Paris. Um outro mutirão foi filmado, onde andavam de braços dados vários líderes do mundo. Alemanha, Itália, França, Reino Unido, e até mesmo Israel e Palestina foram marchar para mostrar apoio.
Mas é absolutamente deprimente a completa falta de compromisso com o resto do mundo. No dia 6 de janeiro, dia do primeiro ataque, enquanto o mundo se chocava com as primeiras notícias sobre o tiroteio, uma bomba explodia no Yemen, matando no mínimo 32 pessoas. Começando em 3 de janeiro, outro grupo terrorista começou a matar, parece que simplesmente por pontuação, pessoas do nordeste da Nigéria. Pelo dia 10, já tinham atingido a marca de 2000 mortos. Há relatos de crianças de 10 anos sendo forçadas a vestir um colete explosivo e sendo usadas contra multidões.
Eu passei quase que os dias inteiros que seguiram o tiroteio discutindo muito. Conversando sobre todos os assuntos possíveis envolvendo o que aconteceu. Religião, extremismo, fundamentalismo, limites do humor. Enxergando as divergências socioculturais que ajudam a entender um pouco do ocorrido. Lendo entrevistas e vendo declaraçõs, das mais lógicas às mais estapafúrdias, pessoas dando o seu tostão sobre aquilo que marcará 2015. E ouvi tão, tão pouco sobre o ocorrido na Nigéria.
Agora a poeira já baixou em Paris, os cartunistas foram sepultados. Os protestos pararam. E gente continua morrendo na Nigéria. Claro, li e ouvi muitos comentários sobre isso. Sempre aquele tipo de comentário reclamando, meio como este próprio texto, de que aparentemente 17 franceses valem mais comentários do que 2000 nigerianos. Talvez seja uma aplicação do humanismo comunista de Stalin, que dizia que a morte de uma pessoa é uma tragédia, e a morte de milhares é uma estatística. Talvez seja outra coisa.
Não é uma competição de tragédia. Ninguém quer medir o que causa mais dor. Eu só quero lembrar ao leitor, deixá-lo consciente, de que existe uma ordem nas coisas. Um terrível fator de conformismo, o qual esquecemos no dia a dia. Porque se 2000 pessoas mortas na Nigéria causassem mais comoção do que um atentado na França, isso sim seria surpreendente, infelizmente.
Um dos mais geniais monólogos do cinema nos últimos anos, provavelmente muito mais valorizado pela interpretação do que pela escrita, está no segundo filme do Batman mais recente, O Cavaleiro das Trevas. O Coringa, imortalizado por Heath Ledger, explica como funciona o mundo para Harvey Dent, que está enfrentando um momento de extrema dor física e emocional. Ele explica que quando algo ruim acontece dentro do esperado, dentro do plano natural das coisas, ninguém se importa. Mesmo que o plano seja horripilante. Quando uma coisa, por menor que seja, acontece fora do plano, todos perdem a cabeça.
Não, a morte de 17 pessoas não é pequena. E não está no plano de ninguém. E fez o mundo perder a cabeça. Já que aqui no Brasil nós tivemos ataques à pessoas que compartilham a fé dos terroristas, mas que não tinham absolutamente nada a ver com o ocorrido, podemos concluir que sim, o mundo perdeu a cabeça. E sim, tem gente estúpida no Brasil.
Mas ninguém se moveu muito pelos nigerianos, pelos cidadãos do Yemen, ou por pessoas de classe baixa ou de regiões mais inóspitas no próprio Brasil perdendo sua vida. Não estou falando de passeatas de fachada. Ninguém perdeu a cabeça por causa disso. Não são os atos que não existiram. São os princípios.
A motivação por trás dos assassinatos na França foi ideológica, e isso pode ter alarmado o mundo e criado passeatas em defesa da “liberdade de expressão”. Mas no fim do dia, o evento foi exatamente o que pareceu: assassinato. Motivado por poder e loucura. Assassinatos motivados por poder e loucura que atacam cartunistas franceses mudaram o mundo. Assassinatos motivados por poder e loucura que atacam cidadãos africanos talvez não. De alguma forma, a sociedade moderna nos criou para considerar a morte “do outro” uma coisa comum. É perfeitamente parte do plano uma criança indígena ser queimada viva por madeireiros. É parte do plano a morte de africanos, indianos, ou qualquer habitante de lugares inóspitos. Mas um dano feito a alguém “do nosso time”, do mundo "civilizado", é um transtorno. Parte, imagino, porque se mostra mais perto e mais real, numa consideração muito bizarra da geografia mundial onde a França é logo aqui e a África nem no planeta fica. África, inclusive, que pouco se mexeu. Nem a proximidade geográfica fez com que outros países de lá se fizessem qualquer sinal de ação por causa dos ataques. A idéia de que raça, poder e dinheiro separam as pessoas é uma idéia perversa, mas extremamente forte e extremamente inserida na sociedade mundial.
Um mundo sem assassinatos é possível, e vai começar com pessoas perdendo a cabeça por coisas pelas quais merece-se perder a cabeça. Assassinatos na França. Na Nigéria. No seu município. Afinal, na sua cidade já morreram pessoas por causa da injustiça, e isso não comoveu você.
Novamente, não espero e nem quero “ações”. Antes, procuro a misericórdia. Misericórdia une o termo “miséria” e o termo “cardio”, e significa “sentir a miséria com o coração”, segundo me explicou um pastor. E como diz o Chaplin em seu O Grande Ditador, falta aos homens a capacidade de sentir.
Ninguém mais percebe o que quero deixar aqui, como alerta. De que essa ordem mundial, esse plano, isso é o desnatural. Você foi feito com a capacidade de se colocar no lugar do outro. Mas todo dia que decide permanecer o mesmo de ontem, se conforma mais com as coisas. É uma adulteração bizarra do que faz do ser humano um ser humano.
Os assassinatos na França não mataram a humanidade. Mas a tornaram mais estranha.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

RETROSPECTIVA 2014

É chegada a hora de fazer o que fazemos melhor: olhar para trás e lamentar. E festejar um pouco!
A Totalmente Excelente Retrospectiva 2014.
Vamos lá.
  • O Ebola voltou. E um monte de gente pirou sem o menor motivo.
  • A Rússia mostrou que tem senso de humor com os Jogos de Inverno.
  • A Ucrânia depôs o seu presidente depois que ele resolveu bem mal os protestos que estavam rolando.
  • Durante um protesto no Rio de Janeiro, um cinegrafista da rede Bandeirantes é atingido por um rojão de um dos manifestantes. Ele não sobrevive.
  • A Venezuela continua com a tradição anual de corrupção, crise política e trato dos detratores com violência.  
  • A Rússia mostrou que não tem senso de humor e invadiu a Ucrânia.
  • Um vôo da Malasia Airlines desapareceu e até agora ninguém sabe onde está.
  • A Rússia mostrou que realmente não tem senso de humor e anexou um pedacinho da Ucrânia. Isso ainda ia criar tanto pepino.
  • O Facebook compra o Whats App por mais dinheiro do que você tem.
  • Quase 300 mulheres e garotas foram raptadas por terroristas fundamentalistas, covardes e babacas.
  • Um navio coreano tomba no meio da água. Morreu gente.
  • O Senado Brasileiro aprova o Marco Civil da Internet. E não existe nenhum consenso sobre isso.
  • Aqueles babacas ainda mataram gente e espalharam medo.
  • Um terrível incêndio atinge Valparaíso, destruindo milhares de casas.
  • Caramba Neymar, #SomosTodosHumanos.
  • O Uruguai libera a maconha em seu território para compra, venda, troca, escambo, uso medicinal, recreativo e “brincar de Lego com tijolinhos de maconha”.
  • 100 anos da primeira vez que a loucura varreu o mundo inteiro.
  • O Exército da Tailândia depôs o seu governante.
  • Outros babacas, um pouco mais pro nordeste, invadem o Iraque e começam a matar quem estiver na frente.
  • NASA declara que encontra o provável primeiro planeta capaz de suportar vida depois que descobriram a Terra olhando para baixo.
  • Perdemos um dos maiores escritores de língua latina da história.


  • A Copa do Mundo do Brasil já era vergonhosa antes de começar. Depois que terminou então…
  • O Orkut tem seu fim anunciado.
  • Israel e Palestina continuaram a tradição anual de se atacarem mutuamente. O mundo ocidental e civilizado continuou a tradição anual de apoiar Israel sem nenhuma razão moral.
  • Outro vôo da Malasia Airlines teve problemas. Foi explodido por forças pró-Russia na Ucrânia. Pró-Russia, pró-burrice!
  • Num espaço de seis dias, o Brasil perde João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alvez e Ariano Suassuna. Ano difícil para a literatura.
  • A OMS declara que o Ebola está com a corda toda.
  • Perdemos o homem mais engraçado do mundo.


  • Hackers liberam as fotos de dezenas de famosas em poses terrivelmente íntimas.
  • Eu fui para a Europa, muito bem acompanhado.

  • A Escócia decide continuar no Reino Unido. Eu estava lá! Ninguém parece ter se importado muito!
  • Estudantes mexicanos desaparecem. As suspeitas recaem sobre a própria polícia, que teria exterminado todos em represália a protestos.
  • Uma queda de avião mata o canditado a presidência Eduardo Campos, e joga as eleições brasileiras numa pequena bagunça.
  • Eleições inexplicáveis elegem criminosos, assassinos, déspotas e chefes de estado que não conseguem formar uma frase coerente para governarem o Brasil.
  • Cientistas comprovam que o povo brasileiro esteve de ampla sacanagem na hora de votar.
  • Cientistas também comprovam que levar milhões de pessoas à rua contra a corrupção, injustiça e querendo mudança não vai longe. Se isso for no Brasil.
  • O World Trade Center reabre em Nova York.
  • Dois casos sérios de morte por racismo pelas mãos de policiais americanos inocentados geram um tumulto tremendo nos Estados Unidos, fazendo lembrar que a “Land of the Free” não curte contrastes fortes.
  • Cientistas conseguem pousar um robô num asteróide em pleno movimento.
  • Perdemos o Pequeno Shakespeare. 2014 precisa acabar logo.


  • Outros fundamentalistas babacas atacam uma escola e mata muita gente.
  • A Petrobrás abriu e um monte de coisa interessante saiu de lá.
  • Obama disse que queria ver Cuba lançar um foguete e reata laços políticos e econômicos, afundando Fidel Castro ainda mais na aposentadoria.


Em 2014, perdemos José Wilker, Jair Rodrigues, Paulo Goulart, Dick Dale, Joe Cocker, Mike Nichols, Phillip Seymour Hoffman, Fausto Fanti, Joan Rivers, Harold Ramis, James Garner, Ariel Sharon, Richard Attenborough, Sid Caesar, Eli Wallach, Bob Hoskins, Nelson Ned, Alain Resnais, Mãe Dinah (de surpresa), H. R. Giger, Gordon Willis, Deodato Borges.
O Sarney tá vivo, mas ele abdicou da posição política, quase como um pedido de desculpas.
2014 foi ruim em tantas coisas. Mas foi bom em algumas.
É sua missão fazer de 2015 melhor. Vai ser difícil, mas a gente consegue.
Amanhã é um novo dia. Faça dele algo grande.

Feliz ano novo!